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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Cortando o cordão umbilical: Os problemas de sua família não são seus.

fevereiro 26, 2016
A família é nosso primeiro meio social, é onde construímos e nutrimos nossas primeiras relações e também onde iniciamos nosso desenvolvimento do Eu. Os vínculos costumam se desenvolver de forma intensa, por vezes nos tornando cuidadores e defensores de nossa família.

Acontece que muitas vezes esses laços se constituem de forma a não estabelecer limites a essas relações, tornando-as disfuncionais. 


Família disfuncional? O que é?    "Uma família disfuncional é aquela que responde as exigências internas e externas de mudança, padronizando seu funcionamento. Relaciona-se sempre da mesma maneira, de forma rígida não permitindo possibilidades de alternativa. Podemos dizer que ocorre um bloqueio no processo de comunicação familiar". Fonte:Boa Saúde

Em muitos casos um familiar responsabiliza-se por resoluções de problemas e conflitos que não deveriam ser de sua preocupação. Veja alguns que estão recentes em minha mente.

1.         Filho que assumiu a posição de ‘chefe da casa’ após separação conturbada dos pais. Além de cuidar de si e de suas questões ‘adolescentes’, o filho sente-se na obrigação de cuidar da mãe e educar o irmão mais novo;
2.        Filho de pais que vivem em meio a separações e ameaças de divórcio. O filho vira mecanismo de reconciliação/separação do casal, sendo peça fundamental para que um ciclo briga-separa-volta se mantenha a todo vapor;
3.       Filha mais velha e adulta sente-se responsável por dar suporte a sua mãe (que criou a filha parte da infância sozinha), seja financeira ou emocionalmente. Tornando-se refém dos problemas da mãe, que são normalmente resolvidos pela filha ou não resolvidos para se manter esse tipo de relação;
4.       Irmã que sente-se responsável por cuidar dos irmãos e já na fase adulta continua a resolver os conflitos e arcar com despesas financeiras dos irmãos;
5.       Mãe que, apesar dos filhos já serem adultos e estarem casados, sente-se responsável por conduzir a vida dos filhos e assumir despesas e responsabilidades deles;

Ao expor os exemplos acima não me refiro a situações isoladas ou casos específicos. Me refiro a ciclos repetitivos que adoecem as relações e sobrepõem responsabilidades individuais, transferindo-as ao outro.

Em casos como os já citados todos têm prejuízos em suas vidas. Uma pessoa sobrecarrega-se, outra não amadurece, mantendo uma relação imatura, sem espaço para desenvolvimento com intuito de melhora.
Para alguns pode ser visto como prova de amor, mas não. Amor baseia-se em troca, respeito mútuo e limites. Estipular limites sim é uma prova de amor, amor ao outro e a si mesmo.

Normalmente quem se encontra neste tipo de situação enfrenta dificuldade em romper com o ciclo vicioso que retroalimenta, no entanto, é extremamente necessário que o indivíduo entenda o papel que vêm exercendo e o que o motiva a manter-se nessa posição (normalmente há algum ganho ou enrijecimento por um ganho do passado). A consciência do funcionamento familiar já é de grande valia já que muitas pessoas vivenciam essas situações sem nem ao menos perceber que algo está disfuncional, mesmo em casos em que haja sofrimento manifesto. 


Em alguns casos uma conversa com alguém fora da família, como um amigo, poderá alertar e alterar o status da família. Outras vezes o processo terapêutico se faz necessário. 

O processo terapêutico individual por si só já provocará desdobramentos no lidar deste individuo com seus familiares. Agora se o processo terapêutico for familiar, ou seja, todos os membros da família participarem, o processo poderá ser muito mais rápido, pois os conflitos referentes ao envolvimento e mecanismo familiar serão resolvidos por todos juntos, além de propiciar que todos entendam seu papel no funcionamento da família, possibilitando, assim, a escolha de permanecer retroalimentando os laços disfuncionais ou reescrevendo novas formas de organização e arranjo familiar. 

Texto original de Lar – Livre à Reflexão

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Spotlight - Segredos Revelados (Filme) - por Luis Felipe Pondé

fevereiro 08, 2016

-Luis Felipe Pondé*

O mundo é mais complicado do que pensa nossa vã crítica social. Até ela, nossa vã crítica social, é parte dos processos de acomodação de vícios inconfessáveis. A moral pública funciona por repressão e hipocrisia: a primeira silencia, a segunda sorri em eventos sociais e de caridade. 

Alguém pode ser um pedófilo e, ainda assim, fazer parte de instituições com grandes realizações e ser protegido por elas e por seus entes mais próximos. A pedofilia, assim como toda forma de violência sexual, tende a ser acobertada inclusive por conta da vergonha que ser vítima dela causa. 

Apesar da histeria coletiva quando surge alguma notícia sobre pedofilia (e se for na Igreja, então, a histeria é maior ainda, porque serve de arma para difamação, usada pelos seus concorrentes), na verdade, o cotidiano se ajusta rapidamente para tornar tal "pecado" invisível, a fim de que a vida continue na sua normalidade. Essa é a natureza da moral pública: repressão, hipocrisia, mentira. 

O problema da crítica social de massa (conhecida como "causas políticas progressistas") é que ela é demasiadamente grosseira em seu espírito para tocar nas sutilezas ("finesse") da natureza humana (sim, essa mesma que está na moda dizer que nunca existiu) e seus modos de acomodação via moral pública. 

E a "política progressista" é inócua nesse terreno, porque alguém pode ser um "defensor" dos mais fracos e ser pedófilo. O discurso público em favor do "bem" não garante uma vida alheia às baixarias da natureza humana que habitam as sombras. 

filme "Spotlight", de Tom McCarthy, é um exemplo magnífico de que "quase ninguém" quer saber de casos de pedofilia na Igreja (e eu diria, com certeza, tampouco fora dela). A tendência da moral pública, cuja substância sempre foi e é a hipocrisia, acomoda a pedofilia a fim de que a normalidade social siga realizando, inclusive, tarefas consideradas construtivas para a sociedade. Assim como o bom povo alemão seguiu sua vida... 

O erro da política que se toma como redentora do mundo é não ver sua própria cegueira cognitiva, devido a sua forma de operação: a política é sempre grosseira na atuação e pragmática no espírito. A natureza íntima da política é a guerra, e não a paz. Mantê-la "quieta" exige muita institucionalização dos conflitos. 

A política nada pode fazer acerca dos dramas morais; pode apenas "aniquilar" os atores morais indesejáveis. Logo, não há solução política para questões como a pedofilia sem o uso da violência institucional contra os pedófilos. 

Mas a moral pública –e sua tendência à inércia, normalmente– vence, pois quase ninguém "gosta" de violência explícita. 

O olhar moral (aquilo que antigamente se chamava de "costumes") sobre a sociedade sempre foi mais profundo e amplo, mas difícil de ter algum "uso" para causas progressistas, justamente porque capta a floresta densa que é o mundo humano e suas ramificações infinitas. A alma é um pântano e tende à inércia moral. A pedofilia, como todo "pecado", reside aí. 

O filme trata do famoso caso de uma "rede" de pedofilia na Igreja Católica na região de Boston, na virada do último século. O caso custou a transferência do cardeal Law da diocese de Boston (que sabia de tudo e ficou quieto) para Roma e seu acobertamento institucional. 

Os jornalistas do "Boston Globe" (da equipe de reportagens de fôlego chamada Spotlight) descobrem um sistema interno da Igreja que afastava o padre acusado de pedofilia "em silêncio", com a parceria, muitas vezes, de advogados importantes e em troca de grana para a família da vítima. 

A grana funcionava justamente porque as vítimas eram frequentemente de classes sociais vulneráveis. E o pedófilo, sempre um padre simpático e atencioso com suas ovelhas. 

Combater a pedofilia exige o rompimento com as formas sociais de acomodação dos costumes a serviço da normalidade cotidiana. A violência desses processos de acomodação destroem vidas e carreiras. No filme, um editor-chefe judeu e um advogado armênio encabeçam o combate –ou seja, gente de fora da rede de relações da Igreja Católica. 
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* Filósofo.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2016/02/1737803-spotlight.shtml
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